A escuta como ato político: notas a partir de Lacan.
Sobre como a posição do analista — silenciosa, mas decidida — pode ser pensada como gesto de resistência cotidiana ao ruído contemporâneo.
FIG. 01 · CONSULTÓRIO DE EUGEN BLEULER, ZURIQUE, c. 1908
Há, no fim do Seminário XI, uma passagem que volto a ler todos os anos. Lacan está prestes a encerrar o ciclo, e diz — quase de passagem — que o desejo do analista não é um desejo qualquer.
É um desejo que se sustenta no avesso do que a cultura nos pede. Vivemos uma época que prescreve falar mais, opinar sempre, posicionar-se em tempo real. A psicanálise, neste contexto, propõe outra coisa: ela prescreve escutar. E não qualquer escuta — a escuta que se demora, que suporta o silêncio, que recusa o lugar de resposta pronta.
I · O barulho como sintoma
Falar do contemporâneo virou clichê. Mas talvez precisemos insistir: o ruído atual não é um acidente. Ele é, em algum nível, sintomático. Sintoma daquilo que falha, daquilo que não se deixa simbolizar, daquilo que retorna na repetição infinita das notificações.
“Onde isso falava, eu devo advir” — escreve Lacan, ao retomar a frase freudiana.
Não é o eu que escuta. É a escuta que faz o eu advir.
O analista — quando exerce sua função — opera contra esse fluxo. Ele recebe alguém que vem para falar, e oferece a esse alguém a estranha experiência de ser escutado sem ser interrompido, sem ser corrigido, sem ser aconselhado.
II · Falar e ser escutado
Aqui está, talvez, o gesto mais subversivo da clínica analítica: ele restitui ao sujeito a possibilidade rara de falar sem precisar agradar, sem precisar ter razão, sem precisar concluir nada. Em um mundo de fala performática, isso é raríssimo — e é, em si mesmo, uma posição política.
Não política partidária. Não política de slogan. Política no sentido mais antigo: aquilo que diz respeito à polis, à vida em comum. Restituir a alguém a possibilidade da palavra livre, ainda que silenciosamente, é um modo de cuidar do laço social.
III · A pausa do analista
O analista cala — mas não cala de qualquer maneira. Há um silêncio que é abandono, e há um silêncio que é hospitalidade. O segundo é o que Freud chamou de atenção flutuante: uma escuta que recolhe o que o falante mesmo ainda não soube dizer.
É esse silêncio que precisamos defender hoje. Não por nostalgia. Por necessidade.
IV · Notas finais
Termino com uma frase que escuto, com frequência, em supervisão: “acho que não fiz nada, só escutei”. Devolvo, em geral, a mesma resposta: “então fez tudo”.